Hypnos/A-GPHM
A formar Terapeutas desde 2008

O stress crónico afeta a mente e o corpo de formas que muitas vezes não reconhecemos. Percebe como a hipnose clínica pode ajudar a desacelerar, a respirar e a mudar.

Há uma imagem que utilizo muitas vezes quando falo de stress com os meus pacientes: a de um puzzle com peças a mais. Há dias em que tentamos encaixar tudo: o trabalho, a família, as expectativas, as tarefas que ficaram de ontem e simplesmente não cabe, forçamos e quando forçamos é aí que algo se parte.

O stress não é um objecto que se possui, não o “temos” como se tivéssemos uma caneta no bolso, mas sentimo-lo, através do nosso corpo, da cabeça, na respiração que encurta sem darmos por isso, por vezes durante semanas seguidas, sem conseguirmos identificar exactamente quando é que começou. E é precisamente essa dificuldade em identificar o início que torna o stress crónico tão traiçoeiro, vai-se instalando de forma gradual, quase silenciosa, até que um dia o corpo avisa, de uma forma que já não dá para ignorar.

A questão não é eliminar o stress, isso seria impossível e até contraproducente, no entanto é importante perceber o que está a acontecer, e aprender a responder de forma diferente.

O stress é uma resposta, não um problema

O nosso sistema nervoso tem um mecanismo de protecção que existe há milhares de anos: a reação de luta, fuga ou congelamento. Quando o cérebro identifica uma ameaça, real ou imaginada, o corpo responde, o coração acelera, a respiração fica mais curta, os músculos tensionam-se, as palmas das mãos suam, é uma preparação para agir.

Este sistema salvou vidas durante séculos, o problema é que hoje em dia, o cérebro não distingue bem entre um predador e um prazo de entrega, entre um perigo físico e uma discussão por mensagem, entre uma ameaça real e uma preocupação que existe apenas por antecipação, reage da mesma forma e muitas vezes fica preso nesse estado de alerta, sem conseguir voltar ao repouso.

Quando isso acontece de forma prolongada, o stress deixa de ser útil e passa a ser destrutivo. As dificuldades de sono, irritabilidade constante, falta de concentração, tensão muscular, problemas cardiovasculares e imunidade mais baixa  são alguns dos sinais de um sistema de alarme que não consegue desligar. O corpo fica cronicamente preparado para um perigo que, na maioria das vezes, não chega a acontecer.

Vale a pena sublinhar que nem todo o stress é mau. Uma quantidade moderada de pressão pode ser um motor poderoso para uma entrevista de emprego, para uma apresentação importante, para um projeto que nos desafia, o problema surge quando esse estado se torna permanente, quando o sistema de alerta não encontra o caminho de volta à calma.

mulher com as mãos ao redor do rosto com feição cansativa

O que o stress faz ao corpo e à mente

Quando o estado de alerta se mantém por muito tempo, as consequências acumulam-se. Ao nível físico, o excesso de cortisol e adrenalina começa a afetar o sistema imunitário, o sono, a digestão e o sistema cardiovascular. A nível emocional, a irritabilidade aumenta, a paciência diminui e a capacidade de tomar decisões claras fica comprometida.

Há também um padrão comportamental que aparece com frequência: quando sob pressão prolongada, muitas pessoas recorrem a formas de alívio imediato que, a médio prazo, agravam o problema, como: comer em excesso, fumar, beber, evitar situações ou pessoas que possam aumentar a ansiedade, são algumas das estratégias a curto prazo que funcionam como anestesia, mas que não resolvem nada na raiz.

E depois há o pensamento, porque o stress crónico não vive apenas no corpo, vive sobretudo na nossa cabeça, nos cenários que construímos sobre o futuro, nas conversas imaginárias que repetimos. Nas preocupações que acordam connosco às três da manhã e que, de tanto serem pensadas, ganham uma presença quase física.

O papel da imaginação, a favor e contra nós

Há algo curioso que explica muito do que sentimos: a mente não distingue claramente entre o que imagina e o que vive, o corpo responde a ambos da mesma forma.

Experimente, por uns segundos, imaginar uma situação que lhe cause ansiedade. Algo concreto, que o preocupa genuinamente, normalmente o corpo começa a responder: tensão, aperto no peito, respiração mais superficial, mesmo sem nada ter acontecido de facto, o simples acto de imaginar foi suficiente para activar a resposta de stress.

Isto acontece porque a mente e o corpo comunicam através de imagens e sensações, não de argumentos racionais. É por isso que dizer a si mesmo “não há razão para estar ansioso” raramente resulta. A parte do cérebro que gera o medo não processa a linguagem da mesma forma que o pensamento consciente, precisa de uma linguagem diferente.

E é exatamente aqui que a hipnoterapia entra, se a imaginação pode ativar uma resposta de stress, também pode ativar uma resposta de calma, a questão é aprender a usá-la de forma intencional.

Como a hipnose clínica atua no stress?

A hipnose clínica não é um relaxamento passivo, não se trata de adormecer, nem perder o controlo, nem ficar à mercê de sugestões externas, é um trabalho activo com a mente, feito num estado de consciência diferente do habitual, um estado em que o acesso ao subconsciente fica mais facilitado e em que o trabalho terapêutico tem um impacto mais profundo e duradouro.

Do ponto de vista neurológico, as técnicas hipnóticas desaceleram o ritmo das ondas cerebrais. O estado habitual de vigilância: acelerado, atento, constantemente a processar informação é substituído por um estado mais lento, mais receptivo, mais calmo. 

As áreas do cérebro associadas ao medo e à ansiedade reduzem a sua atividade. A bioquímica do corpo altera-se, é fisiologicamente diferente do estado de stress e o corpo aprende a reconhecer essa diferença.

No meu trabalho, utilizo estas técnicas para ajudar os pacientes a instalar uma resposta diferente perante os mesmos estímulos, não se trata de fingir que o stress não existe, nem de evitar as situações que o provocam, trata-se sim, de treinar a mente para não ficar presa nele, para reconhecer o sinal de alarme sem ser dominado por ele.

Há também um trabalho que vai mais fundo: identificar os padrões antigos, as crenças e os episódios do passado que estão na origem de uma resposta de stress desproporcionada. Muitas vezes, o que nos faz reagir de forma intensa no presente tem raízes em experiências antigas que nunca foram verdadeiramente processadas. A hipnose clínica permite aceder a essas camadas de forma segura, trabalhá-las e criar novas respostas.

Tentar parar de pensar não funciona

Uma das armadilhas mais comuns em quem sofre de stress crónico é tentar controlar o pensamento pela força: “Não posso estar a pensar nisso.” , “Tenho de parar.”,  “Não faz sentido preocupar-me assim.”. O problema é que quanto mais tentamos suprimir um pensamento, mais insistente ele se torna, é uma das formas mais frustrantes de lidar com a ansiedade e infelizmente é também uma das mais comuns.

A abordagem hipnoterapêutica é diferente, em vez de combater os pensamentos, trabalha-se a relação com eles, em vez de tentar forçar a calma, criam-se as condições para que ela apareça de forma natural e em vez de lutar contra o subconsciente, aprendemos a trabalhar com ele, a utilizar a mesma linguagem de imagens e sensações que ele já utiliza.

O que muda com a hipnoterapia

Quando trabalhamos o stress através da hipnose clínica, acontecem várias coisas em simultâneo. O paciente aprende a reconhecer os sinais do seu próprio corpo antes de atingir o ponto de ruptura, o que por si só já muda muito. Aprenda técnicas que pode usar de forma autónoma no dia-a-dia, que actuam mesmo nos momentos de maior pressão e em muitos casos, trabalha os padrões mais antigos que estão na origem da resposta de stress crónica, o que traz mudanças mais profundas e duradouras.

Outro aspecto importante é a autonomia, uma parte do trabalho que faço em sessão é ensinar o paciente a usar estas ferramentas por conta própria, fora do consultório. A auto-hipnose, praticada regularmente, torna-se uma forma de manutenção, um espaço que a pessoa cria para si mesma, onde pode desacelerar, reorganizar-se e voltar ao equilíbrio.

Não é uma solução imediata, nem uma fórmula mágica, mas é uma mudança real, construída de dentro para fora e ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso estar num estado de stress severo para beneficiar deste trabalho. Aliás, quanto mais cedo se intervir, mais fácil é reverter os padrões instalados, antes de se tornarem a única forma que o corpo conhece de funcionar.

Se há uma coisa que aprendi com os anos de trabalho nesta área, é que o stress crónico raramente se resolve com força de vontade, quando a mente está permanentemente acelerada, pedir-lhe que “acalme” sem mais não funciona, é preciso dar-lhe ferramentas e um espaço seguro para aprender a usá-las.

O ritmo que vivemos hoje exige muito, mas não tem de ser vivido em modo de emergência permanente, há outras formas de responder e podem ser aprendidas.

Se reconhece em si alguns dos sinais descritos neste artigo, pode ser o momento certo para dar um passo diferente, entre em contacto e saiba mais através dos workshops e formações disponíveis. 

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